Garibotti e Haley Detonam na Patagonia

Entre os dias 21 e 24 de Janeiro de 2008, atletas Black Diamond Rolando Garibotti e Colin Haley completaram a Travessia Torre, uma conexão de escalada contínua entre Agulha Standhardt, Punta Herron, Torre Egger e Cerro Torre na Patagônia. Seguindo um terreno misto de gelo, neve e rocha a travessia somou mais de 2200metros verticais de escalada e exigiu da dupla toda a habilidade alpina. Logo depois desse feito histórico, no bom estilo single push, Garibotti passou um email para o escritório da BD. Esse é um resumo do seu relato:
 
Esta travessia foi idealizada pelos italianos Andrea Sarchi, Maurizio Giarolli, Elio Orlandi e Ermanno Salvaterra, que tentaram o feito em diversas ocasiões no final da década de 80 e no começo dos 90s. Em 1991 Salvaterra, junto com Adriano Cavallaro e Ferruccio Vidi, escalaram o Punta Herron, realizando assim a primeira ascensão desse cume. A escalada seguiu sobre a aresta norte, uma linha estética batizado de Spigolo dei Bimbi.
No começo de 2005, o alemão Thomas Huber, junto com o suiço Andi Schnarf completaram a travessia do Standhardt para Egger. Apesar de terem saído para escalar apenas o Standhardt pela via "Festerville," uma vez no cume decidiram seguir para o Egger. Movendo leve e rápido completaram a travessia em 38 horas. Eles desceram do Egger pela via “Titanic”, na aresta leste.
No fim de 2005, Salvaterra, juntamente com Alessandro Beltrami e Rolando Garibotti, resolveram a última peça da quebra cabeça dessa travessia completa quando escalaram o Cerro Torre por uma nova via no lado norte, estabelecendo uma nova via: Arca de los Vientos. Com a travessia virtualmente completa o Salvaterra retornou em 2006 com Beltrami e Garibotti tentaram a travessia uma vez mais, mas o mau tempo não permitiu que eles fossem além do Standhardt.
Salvaterra retornou novamente no fim de 2007 com Beltrami, Mirko Masse e Fabio Salvodei. Dessa vez eles subiram Standhardt pela via "Otra vez" e continuaram passando Herron e Egger. Eles chegaram ao Colo da Conquista e escalaram um esticão na parede do Torre antes de descerem. Naquele mesmo período de bom tempo  Garibotti com Hans Johnstone, iniciou a mesma travessia pela via “Festerville” do Standhardt. Eles escalaram o Herron e o Egger, e continuaram para além do Colo de Conquista, completando a metade da porção superior da “El Arca”, sendo impedidos de seguirem para o cume devido à neve inconsistente nos cogumelos de gelo.
Garibotti, tendo completado toda a escalada da travessia decidiu permanecer em Chalten para outra tentativa. Ele tentou com outros companheiros incluindo Bruce Miller e Bean Bowers, mas a oportunidade veio quando ele se juntou com Colin Haley. Haley havia trancado o semestre na faculdade para ficar mais tempo na Patagonia havia completado no ano anterior a conexão das vias "A la Recherché du Temps Perdu" com "West face" no Cerro Torre, com o companheiro Kelly Cordes.
Nos meados de Janeiro de 2008 Alex e Thomas Huber, junto com Suiço Stephan Siegrist chegaram em Chalten, também com o projeto da travessia. No dia 21 de janeiro Haley e Garibotti iniciaram a escalada , mas os Hubers e Siegrist ficaram considerando o tempo não favorável para um projeto dessa envergadura.
Haley e Garibotti escalaram o Standhardt via "Exocet," chegando ao cume logo depois do meio dia, rapelando em seguida para o Col dei Sogni entre o Standhardt e o Herron. Na escalada de "Spigolo dei Bimbi" eles encontraram neve inconsistente e acabaram criando variação nos esticões 2, 3 e 4. Freados pela neve eles bivaquearam abaixo do cogumelo de gelo do Herron. No dia seguinte o tempo melhorou, e apesar de se sentirem estranhamente cansados (devido a intoxicação por monoxido de carbono dentro do saco de bivaque – efeito fogareiro) cruzaram o Herron e o Egger continuando para o Cerro Torre. Na aresta norte do Egger a dupla foi forçada uma vez mais a criar variação na via original devido a presença de neve inconsistente.
Com o bom tempo veio uma elevação anormal de temperatura e antes de chegarem no Colo de Conquista tiveram que parar, em torno das 17 horas, para se abrigarem da queda de gelo. Na manhã seguinte a dupla teve uma surpresa agradável ao constatarem que o cogumelo de gelo que havia impedido o Garibotti e Johnstone de completatem a travessia um mês antes havia despencado.
Haley e Garibotti encontraram a parte superior da “Arca” em condições piores do que o Garibotti havia encontrado no ano de 2005, tendo que retirar muito gelo das fendas. Garibotti teve que instalar um chumbador no pêndulo para evitar um outro cogumelo de gelo. Cansados por dois dias de escalada e freados pelas condições chegaram ao topo da face norte do Torre por volta das 17:00 horas do dia 23. De lá foram para a parte final da via “Ferrari” na aresta oeste. Eles escalaram dois esticões por dentro dos túneis naturais no gelo, e chegaram no esticão final tão famoso por ter rechaçado muitos escaladores. Apesar dos dois já terem escalado o Torre passando por essa via, as condições estavam piores do que eles haviam encontrado nas vezes anteriores. Esse esticão é escalada cavando uma canaleta ou túnel no gelo vertical inconsistente. Como nenhuma equipe havia escalado por via “Ferrari” nessa temporada não havia nenhum terreno pré-preparado e os dois tiveram que fazer todo o trabalho. Num trabalho de uma hora eles abriram uma canaleta de cerca de 10 metros, e pararam para bivaquear sob a lua cheia, a um esticão do cume do Cerro Torre.
Depois de uma longa noite tremendo de frio Haley atacou o último esticão mais uma vez, iniciando a cavar um túnel a partir do topo da canaleta que havia aberto no dia anterior. Ele levou 3 horas cavando um túnel de 20 metros por dentro do cogumelo, conectando-se noutro túnel que se formou naturalmente. Ao meio dia do dia 24 eles chegaram ao cume do Cerro Torre completando a primeira ascenção do super fantasiado Travessia Torre. Após um curto descanso eles desceram pela via “Compressor” chegando na geleira ao entardecer.
Para terem a máxima eficiência o Garibotti e Haley dividiram as tarefas. Haley guiou os esticões em gelo, e  Garibotti guiou no terreno rochoso. O segundo sempre jumareava com a mochila.
No fim  Garibotti fez um agradescimento:
Muito obrigado ao “il Maestro”, ao Ermanno Salvaterra, pela idéia, pela inspiração, e por ter insistido, por 20 anos, mostrando o caminho...